top of page

COMO APIMENTAR A RELAÇÃO? O DESEJO NÃO ACABA APENAS POR CAUSA DO TEMPO

  • há 1 dia
  • 8 min de leitura

Quando um casal percebe que a vida sexual mudou, uma das primeiras frases que costuma aparecer é: “Precisamos apimentar a relação”.

Então começam as sugestões. Fazer algo diferente, viajar, comprar alguma coisa nova, realizar uma fantasia, mudar o ambiente ou experimentar algo que nunca fizeram.

Nada disso é necessariamente ruim. A novidade pode, sim, produzir excitação e ajudar um casal a sair do automático.

Mas existe uma pergunta anterior que considero muito mais interessante: o que exatamente aconteceu com o desejo de vocês para que agora seja necessário recuperá-lo?

Porque uma relação não perde intensidade simplesmente porque duas pessoas passaram muito tempo juntas. Existem casais com décadas de relacionamento que preservam uma vida sexual satisfatória, assim como existem casais relativamente novos que já se sentem distantes.

O tempo participa dessa história, mas não explica tudo.

Entender o desejo exige olhar para a maneira como o casal se relaciona, para a rotina que construiu, para aquilo que deixou de ser dito e também para a relação que cada pessoa mantém com a própria sexualidade.


QUANDO O OUTRO DEIXA DE SER NOVIDADE

No começo de uma relação existe algo que favorece naturalmente o desejo: ainda não conhecemos completamente o outro.

Queremos descobrir.

Existe expectativa antes de um encontro, curiosidade sobre aquilo de que a pessoa gosta e uma sensação de novidade produzida justamente pelo fato de ainda haver muito a conhecer.

Com o tempo, a relação se transforma. Criamos intimidade, segurança e previsibilidade. Passamos a conhecer hábitos, preferências, defeitos e maneiras de reagir.

Isso é parte da construção de um vínculo.

O problema começa quando intimidade passa a ser confundida com conhecimento absoluto.

“Eu já sei como ele é.”

“Ela não gosta disso.”

“Ele sempre quer aquilo.”

“Ela nunca tem vontade.”

Aos poucos, paramos de perguntar porque acreditamos que já conhecemos todas as respostas.

Mas ninguém permanece exatamente igual ao longo dos anos.

O corpo muda, as fantasias podem mudar, aquilo que desperta desejo pode mudar e até a maneira como queremos ser tocados ou desejados pode se transformar.

Quando um casal deixa de ter curiosidade, pode continuar íntimo e, ao mesmo tempo, deixar de descobrir um ao outro.


DESEJO E AMOR NÃO FUNCIONAM DA MESMA MANEIRA

Esse é um ponto importante porque muitas pessoas interpretam qualquer mudança na vida sexual como sinal de que o amor diminuiu.

Nem sempre.

Podemos amar alguém profundamente e atravessar períodos de pouco desejo. Também podemos sentir desejo por alguém com quem não construiríamos uma relação amorosa.

Amor e desejo podem caminhar juntos, mas não são exatamente a mesma experiência.

O amor frequentemente busca segurança, proximidade e estabilidade. Já o desejo também pode ser alimentado por curiosidade, novidade, imaginação e pela percepção de que o outro não nos pertence completamente.

Em relações longas, o desafio não é escolher entre segurança e desejo. É construir espaço para que a intimidade não elimine completamente a individualidade.

Quando duas pessoas passam a funcionar apenas como uma unidade responsável por administrar uma casa, filhos, contas e compromissos, pode ficar mais difícil enxergar uma à outra fora dessas funções.

O parceiro deixa de aparecer como alguém a ser desejado e passa a ser percebido principalmente como a pessoa que precisa buscar as crianças, pagar uma conta ou lembrar de comprar alguma coisa.

O relacionamento continua funcionando.

Mas funcionar não é necessariamente desejar.


TALVEZ O PROBLEMA NÃO ESTEJA NO QUARTO

Quando existe insatisfação sexual, é tentador procurar uma solução exclusivamente sexual.

Mas o que acontece na cama não começa na cama.

Ressentimentos acumulados, divisão desigual de responsabilidades, críticas constantes, falta de admiração, conflitos não resolvidos e sensação de solidão dentro do relacionamento podem atravessar profundamente a sexualidade.

Imagine uma mulher que passou o dia inteiro trabalhando, cuidando dos filhos, organizando a casa e lembrando o parceiro de responsabilidades que também deveriam ser dele.

À noite, ele procura sexo.

Talvez a dificuldade dela em entrar naquele encontro não tenha começado naquele momento.

Talvez tenha começado muitas horas antes.

Da mesma forma, um homem que se sente permanentemente criticado ou rejeitado pode começar a se proteger evitando novas aproximações.

Por isso, antes de procurar uma novidade para “salvar” a vida sexual, pode ser importante perguntar como está a relação fora dela.

Vocês estão próximos?

Existe admiração?

Existe ressentimento?

Vocês conseguem conversar?

Ainda existe carinho sem que ele necessariamente precise terminar em sexo?

Existe espaço para serem casal ou vocês se tornaram apenas uma equipe de administração da vida?

Essas respostas podem dizer muito sobre aquilo que acontece quando vocês chegam ao quarto.


O CANSAÇO TAMBÉM PARTICIPA DO DESEJO

Outro aspecto frequentemente ignorado é o esgotamento.

Desejar exige alguma disponibilidade.

Quando uma pessoa passa o dia inteiro resolvendo problemas, trabalhando, cuidando de outras pessoas e administrando preocupações, talvez seja difícil simplesmente desligar tudo porque chegou determinado horário.

O corpo está presente, mas a mente continua ocupada.

Isso não significa necessariamente que deixou de existir atração pelo parceiro.

Talvez exista pouco espaço psíquico disponível para o desejo naquele momento.

Por isso, em alguns relacionamentos, melhorar a vida sexual pode exigir mudanças que aparentemente não têm nada a ver com sexo.

Dividir melhor as responsabilidades, dormir mais, reduzir determinadas cobranças e recuperar momentos de lazer podem fazer mais pela intimidade do que simplesmente acrescentar novidades ao quarto.


CONVERSAR SOBRE SEXO AINDA É DIFÍCIL PARA MUITOS CASAIS

Existe uma ironia interessante: algumas pessoas conseguem fazer sexo com o parceiro, mas têm vergonha de conversar com ele sobre sexo.

Não dizem exatamente do que gostam. Não falam sobre fantasias. Evitam contar quando alguma coisa não é prazerosa e podem até fingir satisfação para não constranger o outro.

Com o tempo, cada um começa a acreditar que sabe exatamente como proporcionar prazer ao parceiro.

Mas talvez esteja apenas repetindo aquilo que nunca foi questionado.

Uma vida sexual satisfatória precisa de alguma capacidade de comunicação.

Isso não significa transformar cada encontro em uma avaliação. Significa criar um relacionamento no qual seja possível dizer “gosto disso”, “isso não funciona para mim”, “tenho curiosidade sobre isso” ou “hoje não quero” sem que essas frases sejam interpretadas automaticamente como crítica ou rejeição.

Quanto mais seguro é o espaço para falar, maior pode ser a liberdade para descobrir.


FINGIR PRAZER PROTEGE O OUTRO, MAS AFASTA VOCÊS

O orgasmo fingido é um exemplo bastante claro dessa dificuldade.

Algumas pessoas fingem para terminar uma relação sexual, evitar constrangimento ou proteger a autoestima do parceiro.

A curto prazo, parece mais fácil.

Mas existe uma consequência: se o outro acredita que determinada experiência está funcionando, provavelmente continuará repetindo exatamente aquilo.

A mentira criada para proteger a relação começa a impedir que ela melhore.

Isso vale para o orgasmo, mas também para o desejo.

Quando alguém aceita sexo repetidamente sem vontade apenas para evitar conflito, pode começar a associar intimidade a obrigação.

E desejo dificilmente floresce onde não existe liberdade para dizer não.


APIMENTAR NÃO SIGNIFICA FAZER COISAS QUE VOCÊ NÃO QUER

Existe também uma pressão contemporânea para ter uma vida sexual “interessante”.

Casais podem começar a acreditar que precisam experimentar determinadas práticas, realizar fantasias ou estar sempre abertos a novidades para provar que possuem uma sexualidade saudável.

Mas sexualidade não deveria ser uma competição.

Uma experiência só faz sentido quando existe interesse genuíno, consentimento e possibilidade de conversar sobre limites.

Você não precisa gostar daquilo que outras pessoas gostam.

Seu relacionamento não precisa reproduzir aquilo que aparece nas redes sociais, em filmes ou nas histórias de amigos.

O objetivo não é construir uma vida sexual que pareça interessante para quem observa de fora.

É construir uma vida sexual verdadeira para as duas pessoas que estão dentro dela.


A NOVIDADE PODE SER MUITO MAIS SIMPLES DO QUE PARECE

Quando pensamos em novidade, imaginamos frequentemente grandes mudanças.

Mas nosso desejo também responde ao contexto.

Um encontro fora de casa, uma conversa diferente, algumas horas sem celular ou simplesmente fazer algo que vocês não fazem há bastante tempo pode alterar a maneira como um percebe o outro.

Às vezes, a novidade não está em fazer algo sexualmente extraordinário.

Está em voltar a olhar.

Muitos casais param de flertar depois que estabelecem uma relação. Deixam de elogiar, de provocar expectativa e de criar momentos de antecipação porque imaginam que o acesso ao outro já está garantido.

Mas desejo não funciona bem como obrigação contratual.

Ser casado com alguém não significa que o desejo estará automaticamente disponível sempre que vocês quiserem.

Ele precisa continuar encontrando espaço.


FLERTAR COM QUEM JÁ É SEU PARCEIRO

Talvez essa seja uma das coisas mais simples que desaparecem com o tempo.

No início, existe intenção.

Pensamos no que vestir, escolhemos onde encontrar a pessoa, mandamos mensagens, criamos expectativa e prestamos atenção à maneira como ela reage.

Depois, a intimidade cresce e podemos começar a tratar o encontro como garantido.

Recuperar um pouco do flerte não significa fingir que vocês acabaram de se conhecer.

Significa lembrar que o outro continua sendo alguém que deseja ser visto.

Um elogio específico, uma mensagem durante o dia ou um beijo que não seja apenas automático podem comunicar algo importante: “Eu ainda percebo você”.


NÃO TRANSFORME O SEXO EM MAIS UMA META DO CASAL

Quando a vida sexual diminui, algumas pessoas começam a estabelecer metas.

Precisamos fazer sexo tantas vezes por semana.

Precisamos recuperar aquilo que fazíamos no começo.

Precisamos ter mais iniciativa.

Para alguns casais, combinar momentos pode ser útil. Principalmente quando a rotina é intensa e esperar que tudo aconteça espontaneamente significa que nunca haverá espaço.

Mas existe uma diferença entre criar espaço e criar obrigação.

Quando o sexo passa a funcionar como prova de que a relação está saudável, cada encontro carrega um peso enorme.

Se não aconteceu, existe preocupação.

Se alguém não teve vontade, existe insegurança.

Se não foi extraordinário, parece que alguma coisa está errada.

Sexo não precisa provar o estado inteiro de um relacionamento.

Existem fases.


O QUE VOCÊ DESEJA HOJE?

Talvez essa seja uma conversa mais interessante do que perguntar simplesmente como “apimentar” a relação.

O que você deseja hoje?

Não o que desejava cinco anos atrás.

Não aquilo que acredita que deveria desejar.

Não o que seu parceiro espera.

O que desperta curiosidade em você neste momento da sua vida?

E o que desperta desejo no seu parceiro?

Talvez vocês descubram respostas que não conheciam.

Talvez descubram também que existe vergonha, medo de julgamento ou insegurança impedindo determinadas conversas.

É justamente nesse ponto que sexualidade deixa de ser apenas aquilo que fazemos com o corpo e passa a revelar muito sobre nossa relação conosco mesmos.


QUANDO A FALTA DE DESEJO PRECISA SER OLHADA COM MAIS ATENÇÃO

Nem toda redução de desejo é um problema.

Existem períodos de maior e menor interesse sexual ao longo da vida, e fatores físicos, emocionais, relacionais e contextuais podem participar dessas mudanças.

O problema aparece principalmente quando essa situação provoca sofrimento, conflito ou afastamento e o casal não consegue conversar sobre ela.

Nesse momento, insistir apenas em novidades pode funcionar como tentativa de tratar um sintoma sem compreender aquilo que está por trás dele.

Pode ser necessário olhar para a relação, para a história sexual de cada um, para as expectativas construídas em torno do sexo e para aquilo que cada pessoa consegue ou não comunicar.


APIMENTAR A RELAÇÃO É RECUPERAR CURIOSIDADE

Talvez, no final, “apimentar” seja uma expressão limitada para algo muito maior.

Porque não estamos falando apenas de adicionar novidades à vida sexual.

Estamos falando de recuperar curiosidade.

Sobre o outro, sobre si mesmo e sobre a relação que vocês estão construindo.

Talvez vocês não precisem voltar a ser o casal do começo.

Aliás, provavelmente não conseguirão, porque vocês também não são mais as mesmas pessoas.

O desafio pode ser descobrir quem vocês são agora.

O que desejam agora.

Como gostam de se encontrar agora.

E quais partes da relação precisam ser revistas para que exista novamente espaço para intimidade.

Uma vida sexual satisfatória não depende de parecer ousada.

Depende de existir verdade suficiente para que duas pessoas consigam falar sobre prazer, desejo, limites, inseguranças e mudanças sem precisar representar um papel.

Se vocês sentem que a intimidade entrou no automático, que conversar sobre sexo se tornou difícil ou que existe um distanciamento que não sabem como atravessar, a psicanálise pode ajudar a compreender o que está acontecendo para além da superfície.

Porque, às vezes, o caminho para recuperar o desejo não começa fazendo algo novo.

Começa conseguindo conversar verdadeiramente sobre aquilo que já não está funcionando.

Agende sua consulta pelo Link na Bio ou WhatsApp.

 
 
 

Comentários


bottom of page