Depois das Flores: O Que Fica Quando o Dia 8 Passa?
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O Dia da Mulher veio. Teve flor, teve post bonito, teve "parabéns por ser forte", "parabéns por ser guerreira", "parabéns por dar conta de tudo".
E agora?
Agora que o 8 de março passou, que as homenagens foram feitas, que o algoritmo já mudou de assunto… eu quero fazer uma pergunta que fica:
o que você está carregando que ninguém está vendo?
Porque tem uma diferença enorme entre ser celebrada um dia e ser enxergada o ano todo.
E a equidade — essa palavra que apareceu em posts, discursos e legendas — não mora no 8 de março. Mora na segunda-feira comum. Mora na terça-feira cansada. Mora na quarta-feira em que você precisa pedir ajuda e sente culpa.
A celebração passou. A realidade ficou.
Eu vejo isso o tempo todo em terapia:
Mulheres que recebem flores em março… e carregam sozinhas a casa mental em abril, maio, junho, dezembro.
Mulheres que são chamadas de "guerreiras" no dia 8… e não têm espaço pra fraquejar em nenhum outro dia.
Mulheres que ouvem "você é incrível"… mas ninguém pergunta "o que você precisa?".
E aqui vai uma verdade desconfortável:
parabenizar a mulher por dar conta de tudo não é reconhecimento. É normalização da sobrecarga.
Equidade não é evento. É prática.
Se você quer saber se existe equidade de verdade na sua vida, não olha pro que foi postado no Dia da Mulher. Olha pro que acontece nos dias normais:
1) Divisão real de tarefas Não "ele ajuda". "Ele ajuda" é frase de quem acha que a tarefa é sua e ele tá fazendo favor. Equidade é: a tarefa é de quem? E se for dos dois, como se divide sem que uma precise pedir, cobrar, gerenciar?
2) Carga mental Quem lembra do aniversário da sogra? Quem percebe que acabou papel higiênico? Quem sabe que a criança tem prova amanhã? Quem antecipa o que vem pela frente? Se a resposta é sempre "eu", não tem equidade. Tem gestão unilateral.
3) Tempo de descanso Quem tem tempo livre de verdade? Sem culpa, sem lista mental rodando, sem interrupção? Se um descansa e o outro "descansa mas tá de olho", não tem equidade.
4) Tomada de decisão Quem decide? Quem decide quem decide? Muitas vezes a mulher até decide… mas carrega sozinha o peso da consequência. Isso não é parceria.
5) Corpo e sexualidade O prazer da mulher é prioridade… ou é acessório? Ela pode dizer não sem punição? Ela pode pedir sem vergonha? Ela pode não querer sem isso virar "problema"?
A força foi romantizada demais
A mulher aprendeu que ser forte é elogio.
Mas ninguém pergunta: forte a que custo?
custo do cansaço crônico
custo da irritação constante
custo da culpa por não dar conta
custo do corpo que denuncia o que a boca cala
custo da relação que vira logística
E aí chega março, tem uma data, e a mensagem é: "parabéns por ser essa mulher incrível".
Meu amor… isso não é celebração. Isso é convite pra continuar sobrecarregada.
O que eu quero pra você não é flores. É divisão.
Eu não quero que você seja elogiada por dar conta.
Eu quero que você tenha condições de não precisar dar conta sozinha.
Eu quero que a conversa sobre equidade aconteça na mesa de jantar, na divisão de tarefa, na hora de decidir quem abre mão do quê.
Eu quero que o "parabéns" seja substituído por: "como eu posso dividir isso com você?"
Um exercício pra semana que vem (e pra todas as outras)
Agora que o dia 8 passou, que as flores murcharam, que o assunto mudou… faz isso com honestidade:
1) O que eu carrego sozinha que precisava ser dividido? (Não vale só listar. Vale conversar.)
2) O que eu venho aceitando como "normal" que na verdade é desgastante?
3) O que eu preciso pedir que nunca tive coragem de pedir?
E depois disso, leva pra conversa. Sem acusação. Sem ataque. Mas também sem acomodação.
Porque equidade não chega por mágica. Ela chega por conversa, acordo e prática.
Pra fechar: ser mulher não é ser super-heroína
Ser mulher é ser pessoa.
Com limite, com cansaço, com direito a espaço, com direito a escolha, com direito a não dar conta de tudo.
E se o Dia da Mulher serve pra algo, que seja pra isso:
Não celebrar a força que a mulher teve que ter. Mas criar condições pra ela não precisar ter tanta.
O ano todo. Não só em março.




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