top of page

ENERGIA SEXUAL NO CASAMENTO: O QUE ACONTECE COM O DESEJO DEPOIS QUE A VIDA A DOIS VIRA ROTINA?

há 10 minutos
10 min de leitura

Quando alguém diz que um casamento “perdeu a energia sexual”, é fácil imaginar imediatamente um casal que quase não faz sexo.

Mas frequência sexual não conta toda a história.

Existem casais que mantêm relações sexuais com alguma regularidade e, ainda assim, percebem que alguma coisa mudou. O encontro se tornou previsível. O flerte desapareceu. O toque quase sempre possui uma finalidade. A curiosidade diminuiu. Um já não se sente particularmente desejado pelo outro.

Também existem períodos nos quais a frequência diminui, mas o casal continua percebendo desejo, intimidade, carinho e interesse mútuo.

Por isso, quando falo em energia sexual dentro do casamento, não estou falando de uma energia misteriosa que precisamos “ativar”. Estou falando daquilo que circula entre duas pessoas quando ainda existe espaço para desejo, erotismo, curiosidade, prazer, aproximação e reconhecimento do outro como alguém que não ocupa apenas uma função na nossa vida.

Essa energia não permanece igual durante todo o casamento.

E talvez nem devesse.

A questão mais interessante é compreender o que acontece com ela ao longo do tempo.

O DESEJO NÃO PERMANECE IGUAL AO DO INÍCIO

O começo de uma relação possui características difíceis de reproduzir depois de muitos anos.

Existe novidade. Existe expectativa. Ainda não sabemos exatamente como o outro pensa, reage, deseja ou se comporta. Um encontro pode ocupar nossa imaginação durante horas antes de acontecer.

Existe muito a descobrir.

Com a convivência, outra coisa começa a ser construída: segurança.

Conhecemos hábitos, manias, horários, preferências e maneiras de reagir. Criamos uma história comum. Desenvolvemos intimidade e previsibilidade.

Nada disso é necessariamente inimigo do desejo.

O problema aparece quando começamos a acreditar que já conhecemos completamente a pessoa que está ao nosso lado.

“Eu sei exatamente como ele é.”

“Ela nunca gosta disso.”

“Ele sempre quer a mesma coisa.”

“Eu já sei o que ela vai responder.”

Quando a curiosidade desaparece, podemos parar de perguntar.

E isso é particularmente delicado porque pessoas mudam.

O que despertava desejo aos 25 anos pode não ser exatamente aquilo que desperta aos 40. O corpo muda. A relação com a sexualidade muda. As fantasias podem mudar. As inseguranças mudam. As necessidades afetivas também.

Talvez uma das formas de preservar a energia sexual seja justamente abandonar a fantasia de que, porque estamos casados há muitos anos, já conhecemos tudo sobre quem está ao nosso lado.

QUANDO O PARCEIRO VIRA APENAS UMA FUNÇÃO

Com o passar dos anos, um casal acumula responsabilidades.

Alguém precisa pagar as contas, levar o carro para manutenção, acompanhar os filhos, fazer compras, organizar a casa, pensar nas férias, lembrar compromissos e resolver imprevistos.

A parceria necessária para administrar a vida pode ser muito bonita.

Mas existe um risco: marido e mulher começarem a se enxergar exclusivamente através das funções que exercem.

Ele se torna o pai das crianças.

Ela se torna a mãe.

Um vira responsável pelas finanças.

O outro administra a casa.

Os dois trabalham, resolvem problemas e chegam ao fim do dia esgotados.

Continuam sendo uma excelente equipe.

Mas quando se encontram como amantes?

Essa pergunta é importante porque desejo exige que, em algum momento, consigamos enxergar o parceiro para além de sua utilidade cotidiana.

A pessoa que divide a conta de luz com você também possui fantasias, desejos, inseguranças, interesses e uma subjetividade que não deveria desaparecer atrás da rotina.

O CANSAÇO TEM VIDA SEXUAL

Muitos casais procuram explicações complexas para a redução do desejo quando, algumas vezes, existe um elemento bastante concreto participando da situação: exaustão.

O desejo precisa de alguma disponibilidade física e psíquica.

Uma pessoa que passou o dia inteiro trabalhando, tomando decisões, cuidando de filhos, administrando problemas e tentando atender às necessidades de outras pessoas talvez não consiga simplesmente desligar tudo quando chega à cama.

O corpo pode estar ali enquanto a cabeça continua percorrendo a lista do dia seguinte.

Por isso, conversar sobre vida sexual sem conversar sobre divisão de responsabilidades pode ser insuficiente.

Quando uma pessoa está constantemente sobrecarregada e a outra pergunta apenas por que ela “não tem mais vontade”, talvez estejam olhando para a última etapa de um problema que começou muitas horas antes.

Em alguns casamentos, recuperar espaço para o desejo também significa redistribuir o peso da vida cotidiana.

RESSENTIMENTO TAMBÉM PARTICIPA DA SEXUALIDADE

O quarto não é uma dimensão isolada do relacionamento.

Aquilo que acontece fora dele entra junto.

Uma pessoa que se sente permanentemente desconsiderada pode ter dificuldade de experimentar proximidade. Quem acumula mágoas pode perceber diminuição do desejo. Alguém que se sente criticado o tempo inteiro pode começar a evitar situações nas quais se sente ainda mais exposto.

Isso não significa que toda dificuldade sexual seja consequência de um problema conjugal.

Desejo e função sexual podem ser influenciados por inúmeros fatores físicos, psicológicos, relacionais e contextuais.

Mas significa que não podemos analisar a vida sexual ignorando a relação na qual ela acontece.

Às vezes, um casal procura uma novidade para “apimentar” a relação quando aquilo que realmente precisa é conseguir conversar sobre uma ferida que está aberta há anos.

ADMIRAÇÃO TAMBÉM PODE PARTICIPAR DO DESEJO

Desejar alguém não depende apenas da aparência.

A maneira como percebemos o parceiro também participa da experiência.

É difícil manter admiração quando passamos anos enxergando apenas aquilo que o outro faz de errado.

Alguns casamentos entram em uma dinâmica na qual quase toda comunicação se torna operacional ou corretiva.

“Você esqueceu isso.”

“Precisa fazer aquilo.”

“Por que ainda não resolveu?”

“Eu já falei mil vezes.”

Existem problemas reais que precisam ser conversados. O objetivo não é substituir conflitos por elogios artificiais.

Mas vale observar quando o relacionamento se tornou um lugar no qual as duas pessoas quase só recebem informações sobre suas falhas.

Quando foi a última vez que você demonstrou ao seu parceiro que percebe alguma coisa interessante nele?

E quando foi a última vez que você se sentiu percebido dessa maneira?

ENERGIA SEXUAL NÃO SIGNIFICA DISPONIBILIDADE PERMANENTE

Existe uma expectativa bastante prejudicial de que um casamento sexualmente saudável deveria envolver desejo constante.

Não deveria.

O desejo varia ao longo da vida.

Existem períodos de maior interesse e períodos de menor interesse. Trabalho, estresse, sono, saúde física, medicamentos, mudanças hormonais, gravidez, puerpério, envelhecimento, conflitos conjugais e estado emocional podem participar dessa variação.

Transformar qualquer redução de desejo em sinal de que existe algo errado pode aumentar ainda mais a ansiedade.

E ansiedade sexual costuma produzir exatamente aquilo que o casal gostaria de evitar: mais pressão.

Quando cada encontro começa a funcionar como teste — “será que hoje ela vai querer?”, “será que ele ainda sente atração por mim?”, “será que nosso casamento está mal?” — a sexualidade deixa de ser espaço de encontro e começa a virar avaliação.

O SEXO NÃO DEVERIA SER UM TERMÔMETRO ÚNICO DO AMOR

Outro problema aparece quando a frequência sexual passa a ser utilizada como principal prova de amor.

“Se me amasse, teria vontade.”

“Se ainda me achasse atraente, me procuraria mais.”

Essas conclusões podem parecer naturais quando alguém se sente rejeitado, mas simplificam demais a experiência do desejo.

Uma pessoa pode amar profundamente seu parceiro e atravessar um período de baixa libido.

Da mesma maneira, aumentar a frequência sexual não resolve automaticamente problemas de intimidade.

O casal pode fazer sexo e continuar emocionalmente distante.

Por isso, em vez de perguntar apenas “quantas vezes fazemos?”, talvez seja mais útil perguntar: “Como nos sentimos quando nos encontramos?”

DESEJO PRECISA DE LIBERDADE PARA EXISTIR

Existe uma contradição importante na sexualidade: quanto mais obrigatória ela se torna, mais difícil pode ser desejá-la.

Quando uma pessoa acredita que qualquer carinho será interpretado como convite sexual, pode começar a evitar carinho.

Quando dizer “não” sempre provoca uma discussão, ela pode passar a fugir de situações que poderiam gerar expectativa.

Quando sexo se transforma em obrigação conjugal, o desejo corre o risco de ser substituído pelo dever.

Por isso, consentimento não é uma questão exclusiva de relações casuais ou do início de um namoro.

Consentimento continua existindo dentro do casamento.

Poder dizer “não hoje” sem medo também ajuda a tornar verdadeiro o “sim” de outro momento.

A IMPORTÂNCIA DE VOLTAR A FLERTAR

Uma das primeiras coisas que desaparecem em muitos relacionamentos longos é o flerte.

No início, existe intenção.

Uma mensagem é pensada. Um encontro cria expectativa. Existe atenção ao olhar, à roupa, ao cheiro, à maneira como o outro reage.

Depois, a convivência torna o acesso à pessoa tão cotidiano que podemos deixar de produzir esses pequenos movimentos.

Não é necessário fingir que vocês acabaram de se conhecer.

Mas existe algo valioso em comunicar ao outro: “eu ainda vejo você”.

Um elogio específico, uma mensagem inesperada, um beijo sem pressa ou um momento reservado para o casal podem parecer pequenos, mas recuperam algo que a rotina frequentemente engole: atenção.

INDIVIDUALIDADE NÃO É AMEAÇA À INTIMIDADE

Pode parecer contraditório, mas proximidade excessivamente fusionada também pode dificultar o desejo.

Quando duas pessoas passam a fazer tudo juntas, conhecer todos os movimentos uma da outra e abandonar interesses individuais, sobra pouco espaço para reencontro.

Casamento não deveria exigir que duas pessoas deixassem de ser duas pessoas.

Ter interesses próprios, amizades, projetos e momentos individuais não significa amar menos.

Em relações seguras, a individualidade pode inclusive permitir que o parceiro continue sendo percebido como alguém que possui um mundo próprio.

Existe diferença entre intimidade e fusão.

Na intimidade, eu me aproximo de você sabendo que você continua sendo outro.

Na fusão, começamos a agir como se qualquer diferença fosse uma ameaça ao vínculo.

E o desejo precisa, em alguma medida, justamente dessa percepção de alteridade.

CONVERSAR SOBRE SEXO É DIFERENTE DE COBRAR SEXO

Muitos casais só conversam sobre sexualidade quando existe um problema.

Nesse momento, a conversa já começa carregada de frustração.

“Você nunca me procura.”

“Você não demonstra mais interesse.”

“Tudo depende de mim.”

Embora essas queixas possam revelar dores legítimas, elas frequentemente fazem o outro entrar imediatamente na defensiva.

Uma conversa sobre sexualidade pode começar em outro lugar.

“O que tem feito você se sentir desejado ultimamente?”

“Existe alguma coisa que você sente falta?”

“O que mudou para você nos últimos anos?”

“Existe algo que gostaria de conversar comigo, mas sente vergonha?”

“O que aproxima você de mim sexualmente e o que afasta?”

Perguntas não garantem respostas fáceis.

Mas criam um espaço diferente da cobrança.

NÃO PRESUMA QUE VOCÊ JÁ SABE DO QUE O OUTRO GOSTA

Anos de relacionamento podem produzir conhecimento, mas também automatismo.

O casal encontra uma maneira de fazer sexo que funciona e passa a repeti-la.

Não existe problema nisso quando os dois estão satisfeitos.

Mas vale lembrar que preferências não são contratos permanentes.

Por isso, conversar sobre prazer não deveria ser entendido como evidência de que existe um problema.

Pode ser simplesmente curiosidade.

O que você gosta hoje?

O que deixou de fazer sentido?

Existe algo de que sente falta?

Existe algo que vocês fazem mais por hábito do que por desejo?

A intimidade cresce quando existe liberdade para responder verdadeiramente.

NÃO É PRECISO “INOVAR” O TEMPO TODO

Existe também uma pressão contemporânea para transformar a sexualidade em experiência permanentemente extraordinária.

Como se uma relação sexual saudável precisasse ser sempre criativa, intensa e surpreendente.

Isso pode transformar prazer em performance.

Novidades podem ser interessantes quando surgem da curiosidade do casal. O problema é quando aparecem como obrigação para provar que o relacionamento continua vivo.

Energia sexual não depende de construir uma vida íntima impressionante para quem observa de fora.

Ela depende de aquilo que acontece entre vocês fazer sentido para vocês.

Às vezes, recuperar desejo envolve experimentar alguma coisa diferente.

Em outras situações, envolve justamente reduzir a pressão para que algo diferente aconteça.

E QUANDO UM DESEJA MUITO MAIS DO QUE O OUTRO?

Diferenças de desejo são comuns.

O problema não está necessariamente em duas pessoas terem ritmos diferentes. Está na maneira como essa diferença é vivida.

Quem deseja mais pode começar a experimentar rejeição e insegurança.

Quem deseja menos pode sentir cobrança e obrigação.

Forma-se então um ciclo: quanto mais um procura confirmação através do sexo, mais o outro se sente pressionado; quanto mais pressionado se sente, mais se afasta; quanto mais se afasta, maior fica a insegurança do primeiro.

Nenhum dos dois precisa ser transformado automaticamente em culpado.

É preciso compreender o que aquela diferença significa para cada um e o que está acontecendo naquele momento da relação.

QUANDO VALE INVESTIGAR MAIS PROFUNDAMENTE

Uma mudança persistente na sexualidade que provoca sofrimento merece atenção.

E nem sempre a explicação estará apenas no relacionamento.

Questões físicas, efeitos de medicamentos, alterações hormonais, dores, condições de saúde e aspectos psicológicos podem afetar desejo e função sexual. Dependendo da situação, avaliação médica ou de outros profissionais de saúde pode ser importante.

Quando existem fatores emocionais ou relacionais, a psicoterapia ou a psicanálise também podem oferecer espaço para compreender aquilo que está acontecendo.

O mais importante é não transformar automaticamente a dificuldade em culpa.

“Você não me deseja mais” pode ser uma interpretação.

Não necessariamente a explicação.

O QUE A PSICANÁLISE PODE AJUDAR A COMPREENDER?

A sexualidade não começa no casamento.

Cada pessoa chega à relação carregando uma história sobre corpo, prazer, desejo, vergonha, rejeição e intimidade.

Algumas aprenderam que desejar é perigoso.

Outras associam sexo a validação.

Há quem precise sentir-se desejado para confirmar o próprio valor. Há quem tenha enorme dificuldade para dizer o que gosta. Algumas pessoas temem decepcionar o parceiro e passam a representar prazer. Outras vivem qualquer recusa como abandono.

Tudo isso pode aparecer dentro da vida sexual do casal.

Por isso, quando falamos sobre energia sexual, também estamos falando sobre a relação que cada pessoa construiu com o próprio desejo.

Nem sempre aquilo que acontece entre dois corpos pode ser compreendido olhando apenas para o comportamento sexual.

Existe uma história psíquica participando daquele encontro.

TALVEZ VOCÊS NÃO PRECISEM DE MAIS SEXO

Essa é uma possibilidade importante.

Talvez vocês precisem de mais descanso.

Talvez precisem dividir melhor as responsabilidades.

Talvez exista um ressentimento que precisa ser conversado.

Talvez precisem recuperar momentos nos quais não sejam apenas pai e mãe.

Talvez alguém precise voltar a cuidar da própria individualidade.

Talvez exista uma dificuldade física que precisa de avaliação.

Talvez precisem conversar honestamente sobre aquilo que desejam.

Ou talvez simplesmente estejam atravessando uma fase na qual a sexualidade ocupa menos espaço, sem que isso signifique que o casamento está condenado.

A pergunta não deveria ser apenas “como fazemos para aumentar nossa frequência sexual?”.

Pode ser muito mais interessante perguntar:

“O que aconteceu com o espaço do desejo dentro da vida que construímos?”

RESUMINDO: ENERGIA SEXUAL TAMBÉM É A CAPACIDADE DE CONTINUAR ENXERGANDO O OUTRO

Casamentos longos inevitavelmente mudam.

O desejo também.

O objetivo não deveria ser reproduzir indefinidamente a intensidade do início da relação, porque aquela intensidade pertencia a duas pessoas que também já mudaram.

Talvez o desafio seja construir uma sexualidade capaz de acompanhar essas transformações.

Uma sexualidade na qual exista espaço para conversar, desejar, não desejar, experimentar, colocar limites, reconhecer mudanças e continuar descobrindo quem está ao lado.

Porque energia sexual não se resume ao que acontece na cama.

Ela também está na curiosidade.

No olhar.

Na admiração.

Na liberdade.

Na expectativa.

Na possibilidade de tocar sem exigir.

Na capacidade de falar sobre prazer sem vergonha.

E, principalmente, na lembrança de que por trás do marido, da esposa, do pai, da mãe e do parceiro de responsabilidades ainda existe uma pessoa que deseja ser vista como indivíduo.

Talvez recuperar a energia sexual do casamento não seja voltar ao começo.

Talvez seja conseguir olhar para quem vocês se tornaram e perguntar, com curiosidade verdadeira:

“Como podemos nos encontrar daqui para frente?”

Se vocês percebem que o desejo mudou, que a intimidade se tornou distante ou que conversar sobre sexualidade sempre termina em cobrança, silêncio ou conflito, a psicanálise pode ajudar a compreender aquilo que está acontecendo para além da frequência sexual.

Agende sua consulta pelo Link na Bio ou WhatsApp.

 
 
 

Comentários


bottom of page