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SERÁ QUE AS MULHERES TÊM MENOS DESEJO SEXUAL?

há 19 horas
12 min de leitura

Existe uma ideia tão repetida sobre sexualidade que, muitas vezes, ela deixa de ser percebida como uma ideia e passa a ser tratada como verdade: homens querem sexo com frequência, enquanto mulheres naturalmente desejam menos.

Essa crença aparece nas conversas entre amigos, nas piadas sobre casamento, nos filmes e até na maneira como muitos casais interpretam suas dificuldades sexuais.

Ele procura. Ela recusa.

Ele reclama que gostaria de fazer mais sexo. Ela diz que não sente tanta vontade.

A conclusão parece pronta: homens têm mais desejo sexual do que mulheres.

Mas talvez estejamos tentando responder de maneira simples a uma pergunta que envolve corpo, história, cultura, relacionamento, saúde, prazer, rotina e subjetividade.

Porque antes de perguntar se mulheres têm menos desejo, talvez seja necessário perguntar: de que desejo estamos falando e em quais condições esperamos que ele apareça?

DESEJO SEXUAL NÃO É APENAS “TER VONTADE DE TRANSAR”

Quando pensamos em libido, costumamos imaginar uma vontade que aparece espontaneamente.

A pessoa está vivendo seu dia e, de repente, sente desejo sexual. A partir daí, procura o parceiro e inicia uma relação.

Essa experiência existe.

Mas ela não é a única maneira pela qual o desejo pode aparecer.

Para algumas pessoas, a vontade pode surgir antes de qualquer contato. Para outras, o desejo pode aparecer ao longo de uma experiência de aproximação.

Um beijo, uma conversa, um toque, uma sensação de conexão ou um contexto erótico podem despertar algo que não estava presente alguns minutos antes.

Isso muda bastante a maneira como interpretamos frases como “eu nunca tenho vontade”.

Talvez aquela pessoa realmente esteja enfrentando uma redução importante de desejo. Mas também pode acontecer de ela estar esperando que a vontade apareça espontaneamente e concluir que existe algum problema porque isso raramente acontece.

Em alguns casos, o desejo não estava ausente. Ele precisava de condições para aparecer.

TALVEZ TENHAMOS TRANSFORMADO UM TIPO DE DESEJO EM PADRÃO

Existe um problema quando utilizamos uma única forma de experimentar sexualidade como referência para todas as outras.

Se consideramos que desejo verdadeiro é aquele que aparece espontaneamente, com frequência e antes de qualquer estímulo, qualquer pessoa que funcione de maneira diferente pode começar a acreditar que possui pouca libido.

Essa comparação aparece especialmente entre homens e mulheres.

Mas seres humanos não possuem uma sexualidade idêntica simplesmente porque pertencem ao mesmo gênero.

Existem mulheres com desejo sexual muito elevado e homens que atravessam períodos de pouco interesse por sexo. Existem pessoas que sentem desejo espontaneamente com frequência e outras cujo desejo depende muito mais do contexto.

Além disso, a sexualidade de uma mesma pessoa pode mudar ao longo da vida.

Por isso, frases como “mulheres são assim” ou “homens precisam mais de sexo” podem atrapalhar mais do que explicar.

Elas transformam experiências complexas em regras.

O QUE ACONTECE ANTES DE ELA CHEGAR À CAMA?

Imagine uma mulher que acordou cedo, preparou as crianças, trabalhou durante todo o dia, respondeu mensagens, resolveu problemas, organizou compromissos, pensou no jantar e ainda passou parte da noite lembrando de tudo aquilo que precisa fazer no dia seguinte.

Finalmente, ela deita.

O parceiro se aproxima.

Ela não sente vontade.

Se olharmos apenas para aquele momento, podemos concluir que existe uma mulher com baixa libido.

Mas talvez estejamos começando a história tarde demais.

O que aconteceu durante as doze horas anteriores?

Quanto de energia física e mental ainda existe disponível?

Ela conseguiu ocupar algum espaço durante o dia que não estivesse relacionado a trabalho, cuidado ou responsabilidade?

Em algum momento conseguiu estar em contato consigo mesma?

O desejo não acontece fora da vida.

O corpo que chega à cama é o mesmo corpo que passou o dia inteiro vivendo tudo aquilo.

CARGA MENTAL TAMBÉM PODE ENTRAR NO QUARTO

Existe uma diferença entre executar tarefas e permanecer mentalmente responsável por elas.

Uma pessoa pode não estar lavando roupa naquele momento e ainda assim estar pensando que precisa comprá-la para o filho.

Pode não estar trabalhando e continuar preocupada com uma reunião.

Pode estar deitada ao lado do parceiro enquanto mentalmente organiza o dia seguinte.

Quando existe uma carga mental intensa, pode ser difícil mudar rapidamente do estado de alerta e administração para uma experiência de disponibilidade sexual.

Isso não significa que toda mulher sobrecarregada terá pouco desejo.

Também não significa que todo problema de libido feminina seja consequência da divisão doméstica.

Mas ignorar o contexto cotidiano e perguntar apenas “por que ela não quer sexo?” pode deixar de fora uma parte importante da resposta.

Às vezes, a conversa sobre sexualidade também precisa ser uma conversa sobre a vida que aquele casal construiu fora do quarto.

“VOCÊ NUNCA TEM VONTADE”

Quando diferenças de desejo aparecem em um relacionamento, elas facilmente se transformam em conflitos sobre amor e rejeição.

Quem procura mais pode começar a pensar:

“Ela não me deseja.”

“Não me acha mais atraente.”

“Se me amasse, teria vontade.”

Quem é procurado pode experimentar outra pressão:

“Preciso aceitar para ele não ficar chateado.”

“De novo vou decepcioná-lo.”

“Ele só se aproxima quando quer sexo.”

Forma-se então uma dinâmica delicada.

Quanto mais uma pessoa procura sexo como confirmação de que continua sendo desejada, mais a outra pode experimentar essa aproximação como cobrança.

Quanto mais cobrada se sente, menos livre fica para desejar.

Quanto menos deseja, mais insegura fica a primeira.

Assim, aquilo que começou como uma diferença de libido pode se transformar em um ciclo de pressão, rejeição e ressentimento.

QUANDO SEXO COMEÇA A PARECER MAIS UMA OBRIGAÇÃO

Desejo e obrigação não costumam conviver muito bem.

Quando alguém começa a fazer sexo principalmente para evitar conflito, impedir que o parceiro fique frustrado ou cumprir aquilo que acredita ser um dever conjugal, sua relação com a intimidade pode mudar.

O sexo deixa de ser um espaço de encontro e passa a ocupar o lugar de uma tarefa.

Isso é particularmente importante quando falamos de mulheres porque muitas foram educadas dentro de uma lógica na qual agradar, cuidar e corresponder às necessidades do outro ocupavam um espaço importante.

Dentro da sexualidade, isso pode aparecer de diversas maneiras.

Ela aceita quando não gostaria.

Evita dizer que determinada prática não lhe dá prazer.

Finge orgasmo.

Prioriza constantemente a satisfação do parceiro.

Tem dificuldade de dizer aquilo que deseja porque teme parecer exigente, inadequada ou sexualmente “demais”.

Depois de algum tempo, talvez aquela mulher realmente tenha cada vez menos interesse naquele encontro.

Mas será que isso significa simplesmente que ela possui menos desejo sexual?

TALVEZ ELA NÃO TENHA POUCO DESEJO. TALVEZ AQUELE SEXO DESPERTE POUCO DESEJO NELA.

Essa é uma pergunta desconfortável, mas necessária.

Quando uma mulher relata falta de vontade, frequentemente investigamos o que está errado com sua libido.

Também podemos perguntar: como é o sexo que ela está vivendo?

Existe prazer?

Existe espaço para dizer aquilo de que gosta?

Ela consegue chegar ao orgasmo?

Sente que seu prazer é tão importante quanto o do parceiro?

Existe preliminar suficiente para que seu corpo acompanhe a experiência?

Ela se sente segura para interromper algo que não está agradável?

Existe curiosidade ou tudo acontece praticamente da mesma maneira?

Ela se sente desejada ou apenas disponível para satisfazer o desejo do outro?

Nenhuma dessas perguntas permite concluir automaticamente qual é a causa da redução de desejo.

Mas elas ampliam a investigação.

Talvez o problema não esteja exclusivamente na quantidade de libido que existe dentro daquela mulher.

Pode estar também na experiência sexual que está sendo oferecida e construída.

FINGIR ORGASMO NÃO É UM DETALHE

Algumas mulheres fingem orgasmo porque não querem decepcionar o parceiro.

Outras querem terminar a relação sexual sem precisar explicar por que não estão conseguindo chegar ao clímax.

Pode parecer uma solução simples para um momento constrangedor.

Mas existe um problema.

Quando você demonstra que determinada coisa funciona, o outro recebe a informação de que deveria continuar fazendo exatamente aquilo.

A tentativa de proteger o ego do parceiro pode manter uma vida sexual que não está funcionando para você.

Além disso, fingir prazer cria uma distância.

O corpo vive uma experiência enquanto a pessoa comunica outra.

Intimidade sexual exige alguma possibilidade de verdade.

Isso não significa que todo encontro precise terminar em orgasmo ou que sexo sem orgasmo seja necessariamente insatisfatório.

Significa apenas que uma relação sexual não deveria depender da representação de um prazer que não existe.

O PRAZER FEMININO TAMBÉM FOI HISTORICAMENTE COLOCADO EM SEGUNDO PLANO

Não podemos falar sobre desejo feminino sem considerar a maneira como a sexualidade das mulheres foi culturalmente construída.

Por muito tempo, mulheres foram ensinadas muito mais sobre como evitar sexo do que sobre como conhecer o próprio prazer.

Não engravide.

Não seja “fácil”.

Não demonstre desejo demais.

Não tenha muitos parceiros.

Cuidado com sua reputação.

Depois, dentro de uma relação considerada legítima, espera-se que essa mesma mulher tenha uma sexualidade espontânea, segura e desinibida.

Essas mensagens contraditórias não desaparecem automaticamente.

Vergonha, culpa e medo de julgamento podem continuar participando da experiência sexual mesmo na vida adulta.

Uma mulher pode racionalmente acreditar que tem direito ao prazer e, ainda assim, sentir dificuldade de expressar aquilo que deseja.

E O CORPO?

Existe um risco em transformar toda discussão sobre libido feminina em uma análise do relacionamento.

O desejo também possui uma dimensão corporal.

Alterações hormonais, gravidez, puerpério, amamentação, menopausa, dor, qualidade do sono, doenças, saúde mental e determinados medicamentos podem afetar a experiência sexual.

Por isso, uma mudança importante ou persistente no desejo, principalmente quando causa sofrimento, merece uma investigação cuidadosa.

Dependendo do caso, acompanhamento médico ou de outros profissionais de saúde pode ser necessário.

Não é adequado concluir automaticamente que “é psicológico”.

Assim como também não é adequado concluir que qualquer mudança na libido feminina é simplesmente “hormonal”.

Corpo e vida psíquica não existem em universos separados.

A RELAÇÃO COM O PRÓPRIO CORPO TAMBÉM PARTICIPA

É difícil se entregar a uma experiência de prazer quando parte da atenção está permanentemente ocupada observando o próprio corpo de fora.

“Será que ele está olhando minha barriga?”

“Estou bonita nessa posição?”

“Será que meu corpo mudou demais?”

Quando a pessoa está preocupada em avaliar a própria aparência, pode ser mais difícil permanecer conectada às sensações que está vivendo.

Nesse sentido, sentir-se sexualmente desejável e conseguir experimentar o próprio corpo são coisas diferentes.

Uma mulher pode receber elogios constantes do parceiro e continuar desconfortável consigo mesma.

Por isso, algumas dificuldades sexuais também passam pela maneira como a mulher aprendeu a olhar para o próprio corpo e pelo quanto consegue habitá-lo como fonte de experiência, e não apenas como objeto a ser avaliado.

RESSENTIMENTO TAMBÉM PODE DIMINUIR O DESEJO

Aquilo que acontece fora do quarto não desaparece quando a porta fecha.

Uma mulher que se sente desconsiderada, sobrecarregada ou emocionalmente sozinha dentro do relacionamento pode encontrar dificuldade para experimentar proximidade sexual.

Imagine passar o dia inteiro sentindo que o parceiro é mais uma pessoa de quem você precisa cuidar.

À noite, espera-se que você consiga mudar imediatamente de posição e encontrá-lo como objeto de desejo.

Para algumas mulheres, essa passagem é difícil.

O problema sexual, então, não começou no momento em que ela recusou uma relação.

Pode ter começado em pequenas frustrações acumuladas durante meses ou anos.

Isso não significa que o parceiro seja sempre responsável pela falta de desejo da mulher.

Significa apenas que desejo também é relacional.

ADMIRAÇÃO, SEGURANÇA E CONEXÃO

Para algumas pessoas, a qualidade da relação influencia fortemente o desejo.

Sentir-se emocionalmente segura, respeitada, percebida e valorizada pode favorecer a disponibilidade para intimidade.

Para outras, a sexualidade pode funcionar de maneira mais independente do estado emocional do relacionamento.

Novamente, não existe uma única regra feminina.

O importante é compreender como aquela mulher funciona.

Talvez ela precise de conexão emocional para acessar mais facilmente seu desejo.

Talvez precise de novidade.

Talvez precise de tempo.

Talvez precise sentir-se desejada.

Talvez precise recuperar alguma individualidade dentro do casamento.

A pergunta deveria ser menos “como mulheres funcionam?” e mais “como você funciona?”

O DESEJO TAMBÉM PRECISA DE INDIVIDUALIDADE

Em relacionamentos longos, existe uma tendência de construir cada vez mais proximidade.

Isso é esperado.

Mas intimidade não precisa significar fusão.

Quando duas pessoas fazem absolutamente tudo juntas, deixam de cultivar interesses próprios e passam a existir apenas como uma unidade, algo da curiosidade pode desaparecer.

O outro se torna conhecido demais.

Previsível demais.

Disponível demais.

Preservar individualidade não significa criar distância artificial para aumentar o desejo.

Significa reconhecer que casamento não elimina a existência individual.

Você continua sendo alguém para além de esposa, mãe e parceira.

Seu parceiro também continua possuindo uma vida subjetiva que não pertence completamente a você.

Existe algo potencialmente erótico na possibilidade de reencontrar uma pessoa que continua tendo um mundo próprio.

DESEJO NÃO DEVERIA SER MEDIDO APENAS PELA FREQUÊNCIA

Outra armadilha é transformar quantidade de sexo em medida de saúde do relacionamento.

Quantas vezes por semana seria normal?

Uma?

Três?

Todos os dias?

A pergunta parece objetiva, mas dificilmente resolve alguma coisa.

Um casal pode fazer sexo frequentemente e estar insatisfeito.

Outro pode ter uma frequência menor e sentir-se plenamente confortável.

A questão relevante não é atingir um número ideal.

É compreender se aquilo que está acontecendo funciona para as pessoas envolvidas.

Existe sofrimento?

Existe diferença de desejo que está produzindo conflito?

Alguém se sente permanentemente pressionado?

Alguém se sente constantemente rejeitado?

Existe espaço para conversar?

Essas perguntas costumam ser mais úteis do que comparar a frequência sexual do casal com qualquer padrão externo.

O QUE ACONTECE QUANDO ELE DESEJA MAIS?

Diferenças de libido não precisam ser ignoradas apenas porque desejo não é obrigação.

A pessoa que deseja mais também pode sofrer.

Ela pode sentir falta de intimidade, interpretar recusas como rejeição e começar a questionar se ainda é atraente para o parceiro.

Esses sentimentos merecem espaço.

O problema começa quando o sofrimento de um é utilizado para criar obrigação no outro.

É possível dizer “sinto falta da nossa vida sexual” sem transformar isso em “você precisa fazer sexo comigo”.

Da mesma maneira, quem deseja menos pode reconhecer o sofrimento do parceiro sem precisar aceitar relações que não deseja.

A conversa madura acontece quando os dois conseguem sair da disputa sobre quem está certo e começam a investigar o que está acontecendo entre eles.

E QUANDO ELA DESEJA MAIS?

Esse cenário também existe e merece ser lembrado.

Existem muitas relações nas quais a mulher possui desejo sexual maior do que o homem.

Para algumas, isso produz uma experiência particularmente dolorosa porque contraria justamente a narrativa cultural de que homens “sempre querem”.

Quando o parceiro recusa, ela pode interpretar a situação como prova de que existe algo errado com sua aparência ou feminilidade.

Ele, por sua vez, pode sentir vergonha por acreditar que não corresponde àquilo que se espera de um homem.

O mesmo estereótipo que afirma que mulheres desejam pouco também aprisiona homens na obrigação de desejar sempre.

Por isso, questionar esses papéis beneficia os dois.

A PRESSÃO PARA DESEJAR PODE AFASTAR AINDA MAIS O DESEJO

Existe algo paradoxal na sexualidade.

Quanto mais alguém sente que precisa desejar, mais difícil pode se tornar desejar espontaneamente.

A pessoa começa a monitorar a própria libido.

“Será que hoje vou ter vontade?”

“Por que ainda não estou excitada?”

“Será que existe alguma coisa errada comigo?”

“Meu parceiro vai ficar chateado novamente?”

O encontro deixa de ser uma experiência e vira teste.

E poucas coisas são menos eróticas do que sentir que você está sendo avaliada.

Por isso, recuperar o desejo nem sempre significa tentar produzir mais desejo.

Às vezes, significa diminuir a pressão em torno dele.

DESEJO FEMININO NÃO É UM PROBLEMA A SER CONSERTADO

Existe uma diferença importante entre uma mulher estar sofrendo com uma mudança na própria sexualidade e outras pessoas decidirem que ela deveria desejar mais.

Se uma mulher está confortável com seu nível de interesse sexual e isso não produz sofrimento pessoal, precisamos ter cuidado antes de transformar sua experiência em problema.

Ao mesmo tempo, se existe sofrimento, uma mudança significativa ou impacto importante no relacionamento, investigar pode ser valioso.

A pergunta é: quem está incomodado e por quê?

Ela sente falta do próprio desejo?

Ou apenas sente que deveria ter mais vontade porque o parceiro espera?

São situações diferentes.

O QUE A PSICANÁLISE PODE AJUDAR A COMPREENDER?

A sexualidade de uma pessoa não começa no primeiro relacionamento amoroso.

Ela é atravessada pela história.

Pela maneira como o corpo foi tratado dentro da família.

Pelo que foi ensinado sobre prazer.

Pela relação com desejo e culpa.

Pelas experiências de amor, rejeição, vergonha, intimidade e reconhecimento.

Algumas mulheres aprenderam que demonstrar desejo era perigoso. Outras descobriram que ser desejada era uma maneira poderosa de receber validação. Algumas têm dificuldade de reconhecer o próprio prazer porque passaram muito tempo preocupadas em agradar.

Existem ainda aquelas que só conseguem desejar quando se sentem profundamente seguras e outras que percebem o desejo justamente diante da novidade.

A psicanálise não pretende oferecer uma fórmula para aumentar libido.

Ela pode ajudar uma pessoa a perguntar o que seu desejo significa dentro de sua própria história.

Por que determinadas situações despertam desejo e outras não?

Por que dizer “não” é tão difícil?

Por que demonstrar aquilo de que gosta produz vergonha?

Por que sentir-se desejada parece tão necessário?

Por que o desejo diminuiu justamente naquele momento da vida?

Não existem respostas universais.

E essa talvez seja justamente a parte mais interessante.

TALVEZ A PERGUNTA ESTEJA ERRADA

Então, mulheres têm menos desejo sexual?

Podemos encontrar diferenças médias entre grupos em determinados contextos, mas transformar essas médias em destino individual nos diz muito pouco sobre uma mulher específica.

Uma pessoa não é uma média estatística.

Além disso, desejo sexual é influenciado por tantas dimensões que simplesmente atribuí-lo ao gênero pode empobrecer nossa compreensão.

Talvez existam perguntas melhores.

Como essa mulher experimenta o desejo?

Ela sente prazer no sexo que vive?

Consegue comunicar aquilo de que gosta?

Está sobrecarregada?

Existe ressentimento no relacionamento?

Sente-se segura?

Como está sua saúde?

Existe dor?

Algum medicamento pode estar interferindo?

Como se relaciona com o próprio corpo?

Que mensagens recebeu sobre sexualidade ao longo da vida?

Ela consegue dizer não?

E, talvez uma das mais importantes: existe espaço real para ela desejar ou apenas uma expectativa de que esteja disponível?

RESUMINDO: NÃO É APENAS QUANTO DESEJO EXISTE, MAS ONDE ELE CONSEGUE EXISTIR

Reduzir a sexualidade feminina à ideia de que mulheres simplesmente “querem menos sexo” pode impedir conversas muito mais interessantes.

Às vezes, existe realmente uma redução de libido que merece investigação.

Em outras situações, existe cansaço.

Sobrecarga.

Ressentimento.

Sexo pouco prazeroso.

Vergonha.

Pressão.

Falta de conexão.

Mudanças corporais.

Questões de saúde.

Ou simplesmente uma maneira diferente de experimentar o desejo.

Não precisamos escolher uma única explicação.

Podemos olhar para a pessoa inteira.

Talvez o desejo feminino não precise ser comparado permanentemente ao masculino para ser compreendido.

Talvez precise ser escutado a partir da experiência de cada mulher.

E isso inclui uma pergunta que raramente fazemos quando estamos ocupados demais tentando descobrir quanto sexo alguém deveria querer:

O que faz você desejar?

E, tão importante quanto:

O que acontece na sua vida, no seu corpo e nas suas relações quando esse desejo desaparece?

Se você percebe mudanças na sua relação com o desejo e sente que existe algo nessa experiência que gostaria de compreender melhor, a psicanálise pode ser um espaço para investigar sua sexualidade sem fórmulas prontas e sem a obrigação de corresponder ao que esperam de você.

Porque talvez a questão nunca tenha sido aprender a desejar como alguém acha que uma mulher deveria desejar.

Talvez seja descobrir como o seu desejo funciona e o que ele tem a dizer sobre você.


 
 
 

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